
Os livros e seu mundo
Não raro, deparamo-nos com textos literários que discorrem sobre livros. Entretanto, não me refiro à crítica, que os tem como objeto de investigação e análise. Falo, por exemplo, daquelas crônicas em que obras aparecem na forma de tema, como o cotidiano e o amor são assuntos possíveis, justamente por serem elementos da vida.
Desse modo, escrever sobre livros e questões do seu universo não representa necessariamente a procura pelo exercício da atividade crítica ou pelo discurso metalinguístico. Cavaquear com o último texto lido (e, no fundo, ler é dialogar) pode significar, no escopo de suas intenções, apenas abordar determinada experiência; ainda que, em última instância, produza-se também metalinguagem. Tratar de tais “objetos” ou da vivência entre eles é também falar do mundo em geral e de um em específico.
Os críticos crípticos não enxergam isso, nem poderiam; pois, mesmo trabalhando com esse material, fecham os olhos para tudo que pulsa. O universo dos livros palpita como nenhum outro. O intelectual que se recusa a ver o mundo não pode compreender a leitura como a prática permeada de vida que é.
Quem não se insere nessa relação de vida não compreende o fenômeno completamente. Todavia, ela não diz respeito a ofício ou frequência de leitura, mas a um tipo de vínculo e até a certa maneira de viver, na qual os livros possuem outra dimensão (muito além da materialidade do impresso) e aparecem como elementos fundamentais do cotidiano.
E são só esses leitores, os de vida, que conseguem experienciar a dimensão transcendente contida nos livros. Tão imprescindíveis como o pão e a água, tão habituais como tomar café pela manhã, mas dotados de uma significação que nada disso consegue comportar. Fazem parte do dia a dia, porém, jamais perdem o encanto que possuem.
Destarte, é plenamente natural que a vivência contida no correr cotidiano das páginas esteja presente no que se escreve. Não se pode falar sobre o que está fora da vida, e os livros estão inseridos nela. Mais do que isso, com eles, constitui-se especial forma de existir. Assim como engendram um mundo, que é, ao mesmo tempo, todos os mundos, existentes e possíveis.
Publicado originalmente no Crônicas Cariocas em Quarta, 24 de nov. de 2021
























Se o autor de “O livro e seu mundo” fez uma boa reflexão sobre a leitura.
Como apreciei o seu texto, peço de coração: tira a palavra [ Destarte] ? Dá pra negociar ?